ofos cumprem a missão de evitar as contradições decorrentes de crenças e ilusões, certamente, porque nem todos exercitam a razão como o filósofo que se dá ao respeito. Com tudo isso, é veemente em afirmar, que nem todas as pessoas raciocinam o suficiente para evitar crenças, e que até entre filósofos, com o dever de raciocinar, muitos não o fazem com eficiência. Tudo estaria bem, se em seguida não contrariasse tudo, ao dizer que a “filosofia permite a cada um a apreensão do que é o mundo”. Ora, aqui ele derrubou do “poder” a “nobre” razão e gritou vivas à “rainha filosofia” que ocupou seu lugar. Antes, havia diferenciado os filósofos entre si e as pessoas comuns, pela capacidade de raciocinar, e agora iguala a todos os que se valem do “poder” da filosofia, pois com ela podem ter igual “apreensão do que é o mundo”. Isto significa, agora, que entre filósofos não há diferenças quanto ao uso da razão! Preservando o especial e nobre poder que desfruta, sendo filósofo, ele propõe uma revolução para tornar a todos iguais, dividindo o poder de filosofar com o povo. Ele diz: “É preciso passar da era teológica à era da filosofia de massa”. Macacos nos mordam se não confessou aí o desejo de substituir a doutrina teológica pela da “filosofia de massa” onde o fundamental não é raciocinar e sim descrer em Deus. A igualdade defendida, então, não é a de pensar livremente, mas em tornar todos ateus. Vejamos que no mesmo discurso ele declarou, que: a) os filósofos diferem entre si pela capacidade racional, logo possuem diferente “apreensão do que é o mundo”; b) todos os filósofos são igualmente especialistas em filosofia, logo, todos possuem igual “apreensão do que é o mundo”, seja usando a razão com R, ou com r, e se dando o respeito, ou não; c) que adotando a “filosofia de massa”, qualquer pessoa pode ter a mesma visão de mundo dos filósofos, independentemente de raciocinar ou não, com R ou com r. Então, através de discurso manifesto o entrevistado revela que deseja sim, “convencer as pessoas da inexistência de Deus”, e transformá-las todas em filósofos iguais na incompetência de diferenciar razão de filosofia, e liberdade da prisão mental. Em poucas frases o entrevistado cometeu contradições absurdas como essas, mas é claro, crente que não as cometeu. Não diferenciou as partes do todo; não diferenciou os filósofos competentes dos que não são, nem a certeza racional da certeza irracional, logo, não deve ser levado a sério quando critica crenças alheias. Quem tem esta pretensão deve saber diferenciar o significado de um conceito, de outro, e usar os definidos com rigor, para não incorrer nas contradições que diz abominar. Ele não definiu os conceitos centrais do seu discurso, e este fato o fez cometer tantas ou mais contradições que achou nos textos religiosos que criticou! Disse, por exemplo: “quando uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados, sobre a doutrina, os ensinamentos da religião, não há como não chegar às conclusões que proponho”. Ora, para a pessoa chegar às mesmas conclusões que ele, precisa pensar como ele. Precisa operar com idênticos conceitos e raciocinar “com R maiúsculo”, porque sem antecedentes comuns é impossível concluir o que ele propôs. Nós não concluímos, nem nos deixamos intimidar pela ameaça de estupidez que ele fez do alto do seu pedestal de “pedra filosofal”, a quem conclui diferente dele. Em vez de nos intimidar, preferimos demonstrar que, se há alguma estupidez neste contexto, não é a de quem pensa diferente dele. Afinal, depois de tantas contradições ficamos sem saber nada sobre a razão que ele denominou de “R maiúsculo”, e menos ainda sobre a de r minúsculo. Pior! Ficamos sem saber se ele define “filósofo” como alguém que usa a razão ou como alguém diplomado em filosofia, logo autorizado pelo poder ideológico a exercitar uma parcela desse poder sobre outros. Como ele pretende distribuir o poder de filosofar entre todos das massas, talvez defina o filósofo como alguém que aceita suas conclusões sem raciocinar de modo algum.

Os amigos do saber.

Contradições não são privilégios de ninguém. Ocorrem com todos, sempre que: a) usamos conceitos mal definidos; b) não conseguimos raciocinar com precisão infalível; c) não assumimos posições coerentes com os discursos que fazemos; d) ao evoluir substituímos velhas crenças de estágios evolutivos anteriores, por saber mais atual; e) mentimos, com ou sem intenção deliberada e consciente. A razão depura o saber dos que buscam a depuração com humildade. Porém, raciocinando ou não, todas as pessoas interpretam a realidade e acumulam um saber total durante a existência, no qual podem predominar concepções infantis, mitológicas ou raciocínios coerentes. Desse total manifestam partes nos discursos e atos. Quanto mais racionais, mais coerentes são as idéias manifestas e menores as contradições. Por verdades entendamos as interpretações subjetivas que mais correspondem com a realidade dos fenômenos objetivos a que se referem. Elas são: 1) lógicas ou demonstráveis racionalmente; 2) experimentais ou passíveis de demonstração prática, concreta; 3) demonstradas duplamente; de modo racional e experimental. Os filósofos, embora não dispensem resultados das experiências físicas, são conhecidos por buscar verdades lógicas evitando as contradições. Como essa busca é inevitavelmente humilde, pois deve modificar o próprio saber, os filósofos são definidos correntemente como “amigos da sabedoria”, consistindo esta em transformação evolutiva. Nunca encontramos definição de filósofo dando-o como um sabichão completo, pronto e acabado, capaz de recriar os homens segundo sua imagem e semelhança, e é tendo em mente a definição corrente, que diferenciamos o filósofo competente dos meramente presunçosos e arrogantes. A pretensão do filósofo imbuído da sua missão cognitiva se consagra na busca das verdades menores e maiores ou universais. Quando tem “certeza” de possuir uma conclusão verdadeira é porque pode demonstrar, de modo lógico ou matemático, as razões que lhe dão essa certeza. Muitas vezes erra, se dá mal nos cálculos, mas procura aprender e corrigir os erros, pois o seu objetivo fundamental é buscar verdades. O filósofo entrevistado cometeu um crasso erro, entre vários, de criticar o pensamento religioso e propor ateísmo, sem definir os conceitos centrais. A conseqüência é que seu discurso ficou parecendo mais o de alguém engajado numa cruzada para convocar os homens a aderir às “idéias justas” e atéias que ele professa. E devem acreditar que são “justas”, “certas” porque ele garante que são, por terem sido geradas por razão com a grandeza do R maiúsculo. Com a certeza sustentada pelo poder da autoridade do filósofo, parece mais outro crente que se diz imbuído de poder divino ou sobrenatural. Ambos desejam convencer outros a fazerem o que consideram “certo”. Usando frases de efeito, retumbantes e bombásticas, e não argumentos rigorosamente lógicos para fundamentar a certeza, o entrevistado deixa a razão “em segundo plano, atrás da fé” que investe no poder. Nós definimos fé como um sentimento de certeza. O sujeito que sente fé em dada idéia, a torna “certa”, independentemente de qualquer demonstração racional ou experimental. Logo, podemos sentir que uma idéia é verdadeira e crer nisto, ou então, conhecer os argumentos racionais que demonstram, provam, se é ou não. Em tese, os preceitos religiosos decorreram das intuições de alguns homens, que experimentaram a realidade espiritual ou a natureza de Deus. Ainda em tese, certos pensadores desenvolveram os textos religiosos ao relatar as interpretações que fizeram das experiências tidas em vivência espiritual. Mentiram? Disseram a verdade? Teriam eles passado por experimentos negados a outros homens? Ou seriam essas experiências como a dos astronautas, que puderam ir à lua e nós não? Poderíamos ter ido à lua se também nos dedicássemos com afinco ao mister da Astronáutica? Tal vivência espiritual ocorreria a nós se a buscássemos com denodo? E se os escritores dos textos tiveram uma rica vivência espiritual, mas cometeram erros ao relatar a interpretação dada ao que realmente vivenciaram? Estas são boas questões para levar um filósofo a aprimorar o saber, pois é para evitar erros de interpretação que hoje os competentes cientistas e filósofos, religiosos ou materialistas, procuram livrar a mente dos preconceitos quando examinam experiências e discursos. Ao interpretar a realidade submetem suas concepções à implacável razão, pois sabem que não sabem tudo. Aliás, submetem percepções e idéias à razão, não o contrário, pois o filósofo submetido a uma doutrina ideológica, seja ela religiosa ou atéia, não é livre para examinar coisa alguma. Contudo, o filósofo submetido à doutrina atéia e materialista tem o direito e o dever de questionar as interpretações religiosas da realidade, e de denunciar as contradições que porventura vê nelas, sem colocar em dúvida a inteligência, o caráter, a honestidade e o estado mental do religioso, porque nada sabe daquilo que não consegue vivenciar. A ciência da Parapsicologia é nova, mas já apontou muitos fenômenos difíceis de explicar apenas pelos cânones das ciências convencionais, e tem muito a revelar, ainda, sobre a condição espiritual humana. Logo, o filósofo ateu nada tem de coerente a dizer sobre a fé investida na idéia de Deus, até porque o seu próprio sentimento de fé está investido na ideologia atéia e materialista que defende. Ao indicar contradições pode provocar salutares aprendizagens em todos os espíritos sagazes, mas se contradiz, ao cobrar interpretações absolutamente raciocinais dos outros se não as apresenta. Nenhum filósofo ou cientista pode provar nada sobre a vivência espiritual “subjetiva” e inviolável do outro, e quem se atreve a dizer em quê os homens devem crer, realiza repugnante invasão ditatorial. O filósofo competente faz aos outros o que deseja que façam a ele, por isso, demonstra a sua certeza em alguma idéia com argumentos, com provas, não propondo que se acredite nela. Por viver em comunidade ele pode envolver-se em inevitáveis embates de opiniões e de idéias e se não for um hipócrita assume POSIÇÃO coerente com o que julga verdadeiro. Ao defender sua POSIÇÃO sempre é “tentado” a impor suas interpretações e conclusões a outros, “se esquecendo” de mencionar as razões que o levaram a elas. Neste caso, tenta impingir a outros a sua interpretação da realidade, e a eficácia de sua ditadura dependerá da força ou do poder político e econômico que representa. Antes e durante a Idade Média, por exemplo, a interpretação religiosa de mundo foi desviada da função de orientar o espírito para a sua sublimação, e terminou submetendo-o ao poder mundano e material. Ainda hoje, muitos religiosos se aproveitam da fé alheia nas coisas espirituais, para impor suas tendências ao poder. Na denominada “era das luzes”, que serviu para firmar e consolidar o poder político e econômico da burguesia, a interpretação materialista, positivista e atéia da realidade ganhou força e passou a ser usada pelos “sacerdotes ateus”, para corromper espíritos, se aproveitando da mesma fé nas autoridades do “saber científico”. Sendo assim, toda certeza envolvendo interpretações da realidade seja de quem for, é suspeita de sustentar interesses de manipulação ideológica e deve ser questionada rigorosamente pelo espírito racional.

O desejo de comunicar saber.

Quando um filósofo ou autoridade em qualque tipo de saber comunica idéias a outros, o que pretende? Qual desejo o motiva? E se for o desejo de preservar ou instalar um catecismo que sirva de padrão coletivo de pensamento? Ou o de servir ao poder ideológico, que mantém espíritos religiosos e ateus controlados através de um padrão materialista? Será o desejo de educar para que todos se libertem das crenças infundadas e construam uma humanidade melhor? Para a realização deste ideal educacional é preciso encontrar meios para levar as pessoas a usar processos mentais que as permitam identificar contradições e mentiras nos discursos e atos próprios e alheios, incluindo-se nestes últimos os do educador. Sim, pois a educação honesta ensina as pessoas a diferenciar por si mesmas a verdade da mentira. Portanto, ensina o USO DA RAZÃO. Mas esta é uma tarefa muito difícil, porque nem todos estão dispostos à disciplinar coisa alguma, menos ainda a mente iludida.
O entrevistado parece defender o uso da razão, mas acaba oferecendo suas interpretações e conclusões sem definir os conceitos ou as idéias que levam a elas. Tal fato revela o desejo de que sejam aceitas sem raciocínios rigorosos, ou que haja a substituição da “era teológica” pela era da “filosofia de massa” sem entendimento. Fiéis religiosos passariam, então, de modo incondicional ao fiel exército dos que combatem as religiões e Deus. O uso descuidado de generalizações só pode produzir adesões sentimentais, nunca a compreensão racional! E como poucos raciocinam com o mesmo R do entrevistado, devemos esperar que muitos tenham adotado tantos deuses diferentes quantos forem os níveis de inteligência e de crenças em ilusões. Se o entrevistado definisse ou especificasse o Deus que diz não existir, as pessoas poderiam saber em qual Deus é “errado” crer. Mas, deve saber que o crente prefere sempre a certeza sentimental sendo pouco provável que raciocine sobre trabalhosas definições. Quem acredita no “Deus natureza” porque sente que é assim e é o que deseja, por exemplo, não iria deixar de crer na realidade natural, só porque o filósofo é que deseja. Outro pode crer no deus Sol e o resultado seria o mesmo. Generalizando a idéia de Deus e buscando sastisfazer os sentimentos do homem irracional, propõe que qualquer Deus é “errado”, a quem deseja se sentir livre de responsabilidades éticas, morais, sociais e inclusive a de raciocinar. Contudo, podemos dar um “refresco” ao entrevistado e seguir outra linha de pensamento, e supor, que na profunda concentração exigida pelo uso da razão com R maiúsculo, ele tenha “esquecido” de definir o Deus que combate, em razão de um lapso de memória que mantém fora da consciência o desejo latente de conquistar fiéis. Sendo inconsciente este desejo, ele vestiria os atos afoitos com uma bela racionalização ideal, de livrar as pessoas das repressoras e monstruosas crenças religiosas. E acreditaria executar, sinceramente, essa nobre missão. A fé o impediria de perceber que oferece liberdade às pessoas sem que elas precisem raciocinar. Neste caso, se arriscaria a ser diagnosticado como histérico por qualquer psiquiatra, como o apóstolo Paulo foi, por ele, pois tão iludido como o Dom Quixote, de Cervantes, combateria moinhos de contradições e crenças alheias, “esquecendo-se” das próprias.

O direito e a liberdade de ter prazer.

O entrevistado já demonstrou que nem todos homens raciocinam como um “filósofo de respeito”, e que, por essa razão nem todos podem evitar crenças e contradições nos discursos e atos. Nós, por outro lado, já demonstramos que os indivíduos contraditórios não andam por aí, alertando as pessoas para não acreditar neles. Se isto fizessem não seriam contraditórios, ao menos nesse particular. A regra, como se constata, é que todos, filósofos ou não, tentam convencer outros de que expõem “idéias justas” ou “certas”, acreditando piamente nisto. Ora, com tanta gente crendo em contradições políticas, científicas, filosóficas, literárias, jornalísticas, históricas etc, e impondo suas crenças aos demais, é no mínimo intrigante o entrevistado combater somente as crenças nas religiões e em Deus, que segundo ele são “verso e reverso da mesma medalha”. Ele se justifica dizendo, entre outras coisas, que defende o “direito do ser humano ao prazer”. Logo, confessa, mais uma vez, que o objetivo de sua cruzada não é combater crenças, mas defender o prazer dos outros. Deseja que desfrutem o prazer “certo”, em oposição ao prazer religioso, que é “errado”. E como raros questionam de onde ele tirou essa certeza de que o prazer que defende é o “certo”, muitos podem “abraçar”, de imediato, a busca pelo prazer ateu, “materialista, sensualista, hedonista, anarquista”, sem a menor preocupação de compreender o significado exato de tais conceitos. Afinal, todo amestramento é feito com recompensas de prazer paradisíaco aos que aderem, e com punições infernais aos que se recusam a aderir. Para humanos, a simples promessa de recompensas prazerosas e punições infernais costuma dar bons resultados, como se sabe. Ora, parece ser só o “prazer” obtido na busca filosófica, científica ou religiosa por Deus o “errado” para o entrevistado. E este prazer, ao contrário de defender enquanto um direito humano tenta reprimir, em contradição flagrante aos direitos humanos que alega defender. Aí projeta em outro a culpa pela repressão e vocação ditatorial, dizendo: “Deus é incompatível com a liberdade humana”. Ora, qualquer cientista ou filósofo, ateu, materialista ou religioso, que observa a realidade, não vê Deus reprimindo ou limitando a liberdade de ninguém. Só pode verificar que o entrevistado ataca a LIBERDADE de crença e tenta privar humanos do prazer da busca por ascensão espiritual e evolução, nas religiões, em Deus ou onde queiram.
(continua na próxima ed. de Nossa Posição)