Memória e os Documentos

O primeiro desfile de capoeiras no carnaval de Sorocaba.

 

Nós, Sandra Ayumi e Wellington Figueredo resolvemos disponibilizar alguns documentos encontrados em nossa pesquisa sobre o fundador do NUPEP, e eventualmente alguns depoimentos, para proveito de historiadores, folcloristas, pesquisadores e estudantes do futuro, pois os do presente estão às voltas com muita gozação. A amiga Adriana Alves Lima nos contou que dia um destes, na caminhada que fazia com o professor Jorge Melchíades, encontraram na cidade com um amigo muito gozador e querido, que veio logo dizendo: “Jorge, descobri que eu era capoeirista e não sabia!” O professor Jorge, perguntou sorrindo: “É mesmo?”. Ao que o Dr. Cármine arrematou: “Sim. Antigamente, lá pelos idos da década de 40 e 50, em nossa amada Sorocaba poucos tinham condução à disposição, e como eu não tinha, dei muitas pernadas para ir da minha casa até a Rua dos Morros...” Aí foi só risadas.

É assim esse mestre consagrado da tradicional Faculdade de Direito de Sorocaba (FADI), o ilustre Dr. Cármine Graziosi, que na atualidade é Presidente do Gabinete de Leitura Sorocabano, grande advogado e poeta sorocabano com uma história de vida pública maravilhosa. (Vide matérias sobre ele em Nossa Posição 004 e 014). Ele é um cidadão que todos respeitam e admiram... Um profundo conhecedor do idioma pátrio e da cidade dos tempos idos, é sempre brilhante em suas brincadeiras, pois faz piada nas entrelinhas com um dos significados da palavra pernada, que é o de fazer “caminhada longa”.

O doutor Cármine sabe que nunca foi capoeirista apesar das pernadas que deu!

Mas há muitos, sem o brilhantismo ou a experiência de vida desse emérito cidadão sorocabano, por isto criamos esta coluna e hoje apresentamos o Dr. Juraci Benedito Martins, delegado de polícia aposentado e atuante advogado na atualidade, e o médico Dr. Joel Augusto Rufino, que no carnaval de 1970, enquanto alunos de capoeira do Mestre Jorge Melchiades, desfilaram pelo Clube 28 de Setembro. Foram os primeiros capoeiristas a desfilar em escola de Samba em Sorocaba e o fato foi registrado no Jornal Cruzeiro do Sul de 12/02/1970.

 

Dr. Juraci – Há até uma pequena coincidência que eu gostaria de destacar. No mês de fevereiro de 1970 eu completava 28 anos de idade, número que coincide com a escola que desfilamos, a gloriosa 28 de Setembro, que se sagrou campeã do carnaval naquele ano. Fomos bastante aplaudidos na Rua São Bento, onde tinha um palanque de autoridades e o saudoso radialista Salomão Pavlovsky, conclamava a todos para aplaudir a dupla de capoeiristas que era a primeira a se apresentar em desfile de escola de samba na cidade. Naquela época a capoeira era completamente desconhecida e as únicas pessoas que davam aula dessa arte em Sorocaba eram o Jorge Melchiades e o Jorginho, ligados então ao Grupo Cordão de Ouro do Mestre Suassuna. Foi a partir do funcionamento da academia deles e por demonstrações como estas que fazíamos nas ruas de Sorocaba que a capoeira começou a tomar algum vulto. Hoje, o número de capoeiristas e de academias em Sorocaba é muito grande e a última a ser inaugurada por estes dias, a do mestre Ouriço, está muito distante da primeira, de 1969, da qual temos boas lembranças até hoje.

Com relação ao Clube 28 de Setembro, pelo qual desfilamos com muita honra, eu e o Dr. Joel chegamos a dar lá uma orientação dos princípios básicos a alguns dos associados do clube, que nos recepcionaram muito bem.

Naquela época, porém, a capoeira era tida como dança de malandros. O Mestre Jorge conseguiu transmitir para os alunos a filosofia da capoeira enquanto arte marcial e entretenimento, e sem dúvida, os primeiros ensinamentos dele e mais o nosso trabalho, dos seus alunos, contribuiu bastante para a divulgação e desenvolvimento da capoeira em Sorocaba e região. (Vide anterior depoimento do Dr. Juraci no NP. 004).

 

O Dr. Joel Augusto Rufino é médico do trabalho com consultório nesta cidade, e lembra com carinho o desfile que realizou junto com o Dr. Juraci, pelo Clube 28 de Setembro, em fevereiro de 1970.

Dr. Joel – É com prazer que falo da minha vida como esportista, que começou aí por 1968, quando participei da inauguração da Academia Central, que hoje está na Rua Cesário mota, 405. Era do professor Nenê, e nessa época condicionamento físico era chamado halterofilismo. A Academia Central no ano de 2008 vai fazer 40 anos. A freqüento até hoje. Mas, naquela época eram poucas as pessoas que praticavam esportes na cidade e o mestre Jorge Melchiades tinha uma academia na Rua Rodrigues Pacheco, onde ensinava Tudoeira, uma luta em que valia tudo. A luta envolvia Judô, Capoeira, Jiu-jitsu, Karate, enfim, tudo o que era possível agregar para uma defesa pessoal eficiente. O Jorge tinha uma visão ampla e já naquela época queria uma luta que englobasse todas. E ele falava para nós, coisa que confirmei mais tarde, que o melhor lutador é o que sabia um pouco de cada luta. O Jorge preparou várias pessoas que até hoje se dedicam a artes marciais e são Mestres. Tem o Pascoto, eu fiz Karate e Capoeira, e ainda levei esta arte para a faculdade de Medicina de Jundiaí e para o Clube 28 de setembro, além da Praça da Republica em São Paulo.

 Quando o professor Jorge Melchiades começou a treinar Capoeira passou a dar aulas dessa arte para nós, em academia que abriu na Rua Arlindo Luz e todos os sábados à tarde ajuntava ali muitas pessoas, principalmente para ver o mestre Paulo Limão dar verdadeiros shows de capoeira. Mestre Limão foi um verdadeiro artista, um dos melhores capoeiristas e atletas que conheci até hoje. Era perfeito e ensinava a todos, nas rodas da Academia da Rua Arlindo Luz. Por inúmeras vezes nos expusemos em locais públicos para divulgar a capoeira, acompanhados do mestre Paulo Limão e do Mestre Suassuna, mais um pessoal de São Paulo. Na praça, por exemplo, num domingo a noite fizemos uma apresentação ao som de atabaque, berimbau e pandeiro. Sorocaba nunca tinha visto isso. Eu participava sem ter muita habilidade, mas muitas pessoas me ligavam para saber como era aquela luta. O mestre Jorge Melchíades também promoveu uma apresentação no Recreativo Central, com muitos capoeirista de São Paulo e foi uma coisa incrível para Sorocaba.

Pois bem, fomos convidados pelo Sr. Aparício, um diretor muito simpático do Clube 28 de Setembro, para fazermos uma ala no bloco de carnaval. Foi uma coisa linda que aconteceu na minha vida. Nós ensinamos os golpes básicos para alguns rapazes que completaram a coreografia da ala e arrasamos no desfile. Mostramos que capoeirista não era uma pessoa que apenas dava rasteira ou chute na canela dos outros. Nós dávamos chutes frontais, laterais para trás, cabeçadas, saltos de aú e macaco, golpes de mão e tudo com muita flexibilidade e ginga. O Clube 28 ganhou o primeiro lugar, e inclusive nós tiramos a nota máxima dentro das alas. E o mestre Jorge Melchíades, obviamente foi o âncora de todo esse início, trazendo mestres para cá e removendo a idéia de que capoeira era só de malandro e de vagabundo. Sabe-se que a capoeira era esporte de negros porque os africanos é que a teriam desenvolvido, mas os negros daqui não a conheciam. Fomos nós, eu e o Juraci que começamos a ensinar alguma coisa para alguns associados do Clube 28 de Setembro, coisa que achei muito gratificante.

Um dia, uma figura muito notável na cidade, que ninguém esquece, o Sr. Salomão Pavlovsky, o dono da rádio Vanguarda, nos convidou para o programa Cidade contra cidade do Silvio Santos. Nesse programa demos uma apresentação rápida para os jurados, e Sorocaba ganhou a ambulância. E as pessoas começaram, pela linguagem e explicação do mestre Jorge Melchíades, a entender essa luta genuinamente nacional, que era praticada principalmente na Bahia e tinha o Mestre Pastinha como um dos seus maiores mentores. Em São Paulo tinha o Mestre Suassuna.

Em 1973, quando entrei na faculdade de Medicina teve um abusado que a pretexto de me dar o trote extrapolou. Apliquei uma chapa giratória no peito dele e ao levantar do tombo que levou, dei-lhe uma rasteira. O pessoal veio me perguntar se eu era lutador e falei que era capoeirista. Um dos colegas que ali estavam era um mestre de Karatê e como não tinha capoeira em Jundiaí, ele me convidou para praticar na academia dele. Aceitei, e como eu conhecia o mestre Tarzan e o Mestre Galo, que tinham ido para Campinas, arrumei dois dias na semana para a capoeira, no prédio que era do Carlos, um médico de família muito conhecida em Jundiaí. e com o tempo levei para a faculdade de Medicina um grupo de São Paulo que deu um show para os estudantes. A faculdade ficou de pé para aplaudir e muitos começaram a praticar capoeira. Então, eu treinava com o Tarzan e o Galo e nos outros dias treinava karate. Assim foi durante os seis anos de medicina. E eu aconselho a prática de um esporte porque os vícios, de álcool, droga, cigarros e más companhias não combinam com o esporte. Formei-me em 1978 e continuei praticando Karate no estilo Kiokushim kay kan. Também pratiquei capoeira em várias academias e com mestres como Suassuna, Brasilia, Galo, Tarzan, Celso Bujão... Enfim foi uma história muito linda e nós conseguimos fazer com que a bola fosse rolando até a vinda de outros capoeiristas. Uma coisa que me deixou muito contente também é que a capoeira foi propagada no mundo inteiro, e estou muito feliz porque faço parte da história pioneira da capoeira em Sorocaba e se alguém me perguntasse se faria tudo outra vez, eu responderia que sim.

 

Jornal Diário de Sorocaba - 10/03/1968


Capa do Jornal Diário de Sorocaba - 09/11/1969

 

 Nota. Os grifos são nossos. Esta matéria com original medindo 137 x 210 mm., de capa do Jornal Diário de Sorocaba em 9/11/1969, como várias outras publicadas sobre a capoeira do “jovem mestre Jorge Melchíades”, em tão nobre jornal, foram redigidas pelo competente jornalista já falecido, o senhor Alcir Guedes, escritor, estudioso do folclore com muitos trabalhos publicados sobre o assunto e membro da Ordem dos Velhos Jornalistas, do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, da Associação Sorocabana de Imprensa e detentor de vários prêmios locais e do Estado, por relevantes serviços jornalísticos prestados à coletividade.